Como escolher uma boa abraçadeira? Ela pode realmente influenciar a sonoridade?

Existem diversos fatores que podem influenciar nosso timbre e nossa sonoridade. Alguns evidentemente fazem grande diferença, outros geram uma série de discussões pró e contra o assunto em questão.

Antes de pensar em mudar seu som, considere quem é você:

  • Há quanto tempo você toca?
  • Já tem sua embocadura formada?
  • O que você ouve?
  • Quais são suas influências?
  • Você acredita que já tem condições de notar pequenas alterações em sua sonoridade?

E aqui é bom que fique bem claro que estas alterações são sutis. Você é o elemento fundamental.

Feitas essas considerações seguimos com outro aspecto que faz a diferença, o instrumento.

  • Quais são suas características de construção?
  • De que metal ou liga de metal seu instrumento é feito?
  • Qual é o tipo de banho dado a esse metal?

Depois de refletir sobre isso, vamos considerar ainda a boquilha e a palheta, que são os principais elementos geradores de som no saxofone. As boquilhas podem ser basicamente de massa ou metal e as palhetas, existe uma infinidade delas, naturais e sintéticas. Esses dois elementos são muito importantes na qualidade sonora, que pode ser mais suave, “doce”, mais agressiva, com mais “pegada”, daí vem a curiosidade de querermos saber qual o setup do nosso saxofonista preferido, para quem sabe chegar a uma sonoridade parecida.

Por fim, para a construção de uma boa sonoridade, ainda temos a tão falada abraçadeira, que é nosso objeto de análise aqui.

A questão da qualidade das abraçadeiras gera bastante discussão entre os músicos, alguns acreditam que ela pouco influencia na sonoridade, outros acham que elas fazem grande diferença. O fato é que entre as abraçadeiras de metal e as de materiais sintéticos, existe sim diferença, em minha opinião. O material, sua densidade, o banho que é dado no metal, influenciam na resposta, na cor e no volume. Normalmente as abraçadeiras de metal projetam mais o som ao passo que as de tecido, couro, cordão, revelam uma sonoridade mais intimista e escura.

Em testes que já pude realizar, observei que em minha boquilha de massa, essa diferença é mais sutil quando comparada com uma boquilha de metal.

Antes de fazermos uma análise mais detalhada de alguns tipos de abraçadeiras existentes hoje no mercado, não podemos deixar de lado a real função delas, que nada mais é que fixar a palheta na boquilha permitindo a vibração dessa palheta.

Vibração da palheta, então aqui está o ponto chave para definirmos as características das abraçadeiras. Dependendo de como essa peça se conecta à palheta teremos diferentes pontos de pressão na mesma e portanto a palheta pode vibrar mais ou menos. Quanto menor o contato maior a vibração e vice-versa. Há abraçadeiras que fazem contato com as palhetas na lateral, outras no centro, outras a “enlaçam” etc.

Outro fator relevante é a distância da abraçadeira até a ponta da palheta. Quanto mais próxima da ponta melhor será a emissão das notas de frequência mais altas, ou seja, dessa forma pode-se conseguir uma sonoridade mais brilhante e focada. A articulação também fica mais clara utilizando-se essa posição.

A pressão/aperto feita pela abraçadeira sobre a palheta também vai influenciar a forma como ela vibra, quanto maior a pressão mais firme e focado será o som, do contrário, com uma pressão menor, podemos conseguir um timbre um pouco mais escuro, beneficiando os harmônicos inferiores.

A quantidade de abraçadeiras existente hoje no mercado é enorme, saímos daquelas mais comuns de latão para as feitas em couro, tecido, cordão, banhadas a prata, ouro, as de couro com ressonadores, as de metal com ressonadores que podem ser trocados. Mas o que vale dizer de tudo isso é que cada uma delas deixará a palheta soar de forma diferente. Não vou ficar aqui discutindo cada detalhe o que tornaria esse texto enorme e exaustivo. Sabendo de tudo isso o que vale é experimentar.

Então como escolher uma boa abraçadeira? Nesse momento vou voltar um pouco nas primeiras perguntas que coloquei aqui. Você conhece seu som? Como já afirmei, para perceber as diferenças entre as abraçadeiras é necessário além de se conhecer, ter um ouvido bastante apurado e saber sentir as diferentes respostas sonoras que essa pecinha pode ser capaz de oferecer, tais como, maior facilidade na emissão, volume, timbre, melhoria nas articulações staccato/legato, por exemplo.

Uma das primeiras coisas que você pode fazer é comparar uma abraçadeira de latão básica, daquelas mais comuns que normalmente vem com o instrumento, a qualquer outra do tipo premium, como Ricoh, Vandoren Optimum, Rovner Versa, BG, François Louis e até mesmo a famosa e cara Silverstein. Tenha em mente o que está procurando e tente perceber as pequenas variações e sensações que os diferentes materiais e formas de contato com a palheta podem causar.
Dessa forma ao escolher uma abraçadeira devemos buscar os mesmos elementos que buscamos quando estamos escolhendo uma nova boquilha ou até mesmo um novo instrumento, para isso é necessário testar, e aqui vão algumas dicas:

  1. Escolha uma música com a qual tenha bastante afinidade e sinta a sonoridade no ambiente em que você se encontra. Tenha essa sonoridade como referência;
  2. Mantendo as mesmas condições de ambiente, boquilha e palheta teste a nova abraçadeira tocando a mesma música da mesma forma que a executou da primeira vez. Perceba como é a transição entre os registros grave, médio e agudo;
  3. Note como a sonoridade se comporta indo do pianíssimo ao fortíssimo. Perceba o quanto você precisa se esforçar para atingir esse objetivo;
    Note também a projeção sonora, mais ou menos volume. As abraçadeiras de metal normalmente tem mais projeção que as sintéticas, assim como aquelas que fazem menos contato com a palheta, permitindo que elas vibrem mais, e por consequência produzem uma sonoridade mais clara e aberta;
  4. A articulação é outro elemento que pode mudar de acordo com o tipo de abraçadeira escolhido. Toque as frases em legato e staccato nos diversos registros;
  5. Assim como o setup do seu saxofonista preferido pode não ser o melhor para você, uma abraçadeira que todos afirmam ser “maravilhosa” pode não se encaixar à você. Então faça a escolha por si, por seus parâmetros de comparação, por seus gostos e afinidades.

Se depois de tudo isso você não notar diferença nenhuma ou se perceber alguma mudança muito sutil e que não valha a pena, não se desespere, as mudanças são realmente muito sutis. Há também quem acredite que a mudança está apenas na sensação de quem está tocando e que para o ouvinte nada muda. Tente, experimente, saia da zona de conforto e tire suas próprias conclusões.

Boa sorte e bons estudos!